Análise
A Europa prepara-se para uma guerra que ainda não começou
Há momentos na política internacional em que os sinais deixam de estar apenas nos discursos dos governos e passam para os sistemas de saúde, infra-estruturas, cadeias de abastecimento, forças armadas e preparação das populações. A Europa parece estar a atravessar precisamente um desses momentos.
Nos últimos dias, multiplicaram-se notícias sobre reforço militar, preparação civil, protecção de infra-estruturas críticas e ameaças híbridas atribuídas à Rússia. A leitura mais imediata nas redes sociais é que uma guerra mais ampla na Europa estará iminente. Mas a realidade é mais complexa.
Não existem, neste momento, elementos suficientes para afirmar que uma guerra continental esteja prestes a começar. Existe, contudo, algo que não pode ser ignorado: os Estados europeus estão a preparar-se para um ambiente de segurança em que a possibilidade de um conflito de maior dimensão deixou de ser tratada como remota.
A França elevou a sua postura perante aquilo que o Presidente Emmanuel Macron descreveu como uma intensificação das ameaças híbridas russas. Paris reconhece ter sido alvo de operações de natureza informacional, cibernética e física e determinou o reforço da protecção das infra-estruturas críticas e de instalações estratégicas.
Na Alemanha, o Conselho Nacional de Segurança voltou a analisar ameaças híbridas atribuídas à Rússia e decidiu reforçar medidas contra espionagem e sabotagem, bem como a protecção de infra-estruturas críticas.
Mas talvez o sinal mais relevante esteja na própria NATO.
A Aliança publicou recentemente novos requisitos de resiliência que abrangem continuidade governamental, energia, alimentos, água, saúde, comunicações, transportes e capacidade de resposta a crises e conflitos. Não estamos, portanto, perante uma preparação exclusivamente militar. A NATO está a adoptar uma lógica de segurança societal: uma sociedade que não consegue garantir energia, alimentos, comunicações ou cuidados de saúde durante uma crise também possui uma vulnerabilidade estratégica.
É aqui que a análise deve afastar-se do alarmismo.
Preparar-se para a guerra não significa necessariamente acreditar que ela vai acontecer. Na lógica da dissuasão, a capacidade de resistir a uma agressão procura precisamente aumentar o custo de qualquer eventual ataque e, dessa forma, reduzir a probabilidade de este ocorrer.
O verdadeiro problema está noutro lugar.
A Europa entrou numa fase em que a distinção entre paz e guerra se tornou progressivamente mais difícil de estabelecer. Ciberataques, sabotagem, drones, desinformação, espionagem, violações do espaço aéreo e pressão sobre infra-estruturas podem produzir efeitos estratégicos sem que exista uma declaração formal de guerra.
A questão, por isso, já não deve ser apenas: “Vai haver uma guerra na Europa?”
A pergunta mais importante é: “Está a Europa a entrar numa nova era estratégica em que a guerra voltou a ser uma possibilidade estrutural?”
Tudo indica que sim.
E isso tem implicações que ultrapassam o continente europeu. Num sistema internacional marcado pela competição entre grandes potências, nenhum Estado está completamente isolado das consequências de uma crise desta dimensão. Energia, comércio, alimentos, transportes, mercados financeiros e cadeias de abastecimento estão interligados.
Para África, incluindo Angola, esta realidade também merece atenção. Uma crise europeia de grande dimensão teria efeitos sobre preços de energia, comércio externo, financiamento, segurança alimentar, transporte marítimo e prioridades diplomáticas dos parceiros europeus.
A Europa não está necessariamente a anunciar uma guerra.
Está, porém, a preparar-se para a possibilidade de enfrentar uma crise de segurança muito mais grave.
E essa diferença é fundamental.
A guerra pode não estar à porta. Mas a Europa já não está disposta a deixar a porta sem vigilância.
