Análise

A ditadura do nada fazer

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Vivemos tempos extraordinários. Nunca houve tanta gente consciente, crítica e informada, sobretudo sentada. O cidadão moderno domina a arte suprema da nossa era comentar tudo sem participar em nada. É um atleta olímpico do mínimo esforço, um herói da neutralidade confortável, um combatente feroz do teclado.

José Martí, com a delicadeza brutal que só os homens sérios possuem, avisou se não lutas, ao menos respeita quem luta. Mas a nossa sociedade decidiu inovar. Não luta, não respeita e ainda ridiculariza. É o triplo triunfo da hipocrisia pública.

O activista que enfrenta o poder é exibicionista.
O jovem que protesta é manipulado.
O cidadão que exige direitos é ingénuo.
Já o que não faz nada é prudente, maduro e realista.

A moral pública transformou-se numa sala de cinema. Todos assistem ao drama nacional, criticam o enredo, reclamam do protagonista, mas ninguém quer subir ao palco. O risco é sempre dos outros. O sacrifício também. A coragem, então, que fique bem longe, pode sujar a reputação.

Existe uma elite silenciosa do comodismo que só aparece quando alguém ousa mexer na ordem das coisas. Não surge para ajudar. Surge para explicar por que não vale a pena, por que nunca vai mudar, por que já se tentou antes. São os arqueólogos do fracasso alheio, sempre prontos a desenterrar derrotas passadas para justificar a própria inércia presente.

Há ainda algo mais refinado o desprezo elegante. Não é ataque frontal. É sorriso irónico, comentário venenoso, um ele pensa que é quem. É a forma educada de assassinar a coragem dos outros sem sujar as mãos.

Martí não pedia heroísmo universal. Pedia decência. E isso, aparentemente, é demais.

Porque lutar exige perdas.
Respeitar exige humildade.
Mas a hipocrisia é barata, confortável e socialmente aceitável.

No fim, a História nunca foi escrita pelos espectadores de sofá. Mas, curiosamente, são eles que mais opinam sobre como ela deveria ter sido feita.

1 Comentário

  1. Geraldo Catxikuma

    04/01/2026 em 10:44 am

    Doutor Martí ! Eu achei uma profundeza na sua abordagem, e agradeço por ter me inspirado tanto! O homem actual não precisa usar o telemóvel para exigir a mudança das coisas mas sim precisa entender que ele é a sua própria força, coragem, esperança e também ele é o protagonista da sena!!🫂🫂

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