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Opinião

A covid-19 do “alto nível” no bloqueio dos nossos tabus

Vasco da Gama

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O mês que está nos seus últimos dias, o Outubro, foi marcado por duas situações visivelmente importantes na “metragem” da covid-19, em Angola.

Visíveis porque, com certeza, foram vistas por todos, embora reconheçamos que a sua importância depende(u) da capacidade qualificativa dos cidadãos, em geral, nesta perspectiva.

Uma dessas situações é o aumento substancial dos casos que, neste quesito, conhecem-se os motivos. (Flexibilização das medidas mais “indisciplina” comportamental).

A outra situação e mais importante, em nosso entender, tem que ver com o facto de duas ou três pessoas de “alto nível”, supra estrutura do MININT, terem assumido, em comunicado, que, efectivamente, testaram positivo à covid-19 acrescendo a estas duas figuras um outro governante que o fez dias antes!

O gesto do ministro Laborinho “apimentado” pelo delegado do Interior, no Namibe, o comissário “Limão”, que, aliás, é seu inferior hierárquico, reputa-se de uma importância incomensurável cujos resultados poderão ser determinantes no controlo, combate e postura da sociedade, no geral, face ao letal vírus da covid-19.

Perguntar-me-ão, de certeza, o porquê do valor que atribuímos àquele gesto? A resposta é simples, clara e com fundamentos bastantes:

Antes, permitam-nos fazer um pouco de história. – até mais ou menos 1997 ser portador de HIV/SIDA em Angola e ser conhecido publicamente como tal era quase que colocar a sua vida em risco numa perigosidade superior a do próprio vírus.

Perigo do estigma, da rejeição no trabalho, na família, na Igreja e na sociedade, no geral. Isso, como sabemos, fez morrer muito boa gente que, temendo esse fardo, preferia calar e morrer no silêncio do que assumir.

Só depois do trabalho de António Coelho, (da ANASO, que não sabemos o seu actual paradeiro) de 1997 para o “nosso” tempo, na sensibilização da sociedade sobre a necessidade de se aceitar os portadores daquele vírus, com intervenção pública, na televisão, rádio e jornais de pessoas que já viviam com a doença resolveu-se o problema.

Dito de outro modo, foi graças à postura de muitos cidadãos, incluindo figuras públicas, quebrou-se o tabu sobre o SIDA. ficou claro, por exemplo, que o SIDA não se transmitia por abraço, saudação, comer ao lado do portador e tudo mais.

Com este recuo depreendemos que, de facto, o assumir da contaminação por parte dos dois dirigentes do MININT, “Labuta e Limão” pode ser, o começo de uma nova etapa no que ao controlo e combate à covid-19 diz respeito.

Nova etapa porque, como dissemos, Angola é um país com muitos tabus sobre os quais, como se depreende da própria noção terminológico, não se fala em público e pelo público.

Foi assim que o caso 26, por exemplo, ficou conhecido e somente assim. Tabus que encontram, quase sempre, justificativa de descriminação.

Aliás, estamos numa sociedade em que ter duas ou mais esposas é, na prática, a regra, mas que se recusa a abordar e assumir o assunto por o considerar sensível!

Estamos numa sociedade em que não se aceitaria a que um “branco” fosse Presidente da República e mesmo assim não se fala em público e pelo público porque se entende que a situação é sensível.

Estamos numa sociedade em que um homossexual assumido, por exemplo, não seria bem vindo ao cargo de Ministro, Pastor, Presidente, Administrador de uma estrutura pública, mas, mesmo assim não se fala da forma desejável por pensarmos, infelizmente, que o assunto é sensível.

Enfim, São tantos os tabus que com a covid-19 a realidade não ficou para trás, pelo que o gesto, repetimos, dos dois dirigentes do MININT e com um número elevado de “seguidores” deve, necessariamente, ser considerado nobre, corajoso e com repercussões positivas incalculáveis, em função do histórico da própria sociedade angolana.

Positivo porque, como compreenderão, uma das medidas essenciais no controlo da pandemia é aceitar que ela existe e o vírus pode atacar a qualquer um e altura indeterminável.

É aceitar que um dia contaminado não termina a vida, porque apesar das dificuldades em termos de tratamento há muita gente recuperada, aliás, este número é, de longe, superior ao de mortos.

Portanto, essa consciência e o alinhar dos actos em face da pandemia tem de ter cabeça. Ou seja, tem de existir outros “Antónios Coelhos da covid-19” dispostos a assumir a linha da frente para que estar infectado pelo vírus não seja mais um tabu e mortífero…

Para tal, a existência de mais “Labutas e Limões” é o caminho a seguir para que bloquiemos os nossos tradicionais e históricos tabus.

Finalmente, é fundamental que os dois ou mais protagonistas, como fizeram e de forma fantástica, (se alguém conseguir fazer chegar este pobre pensamento a eles Angola agradece) continuem a assumir a qualidade de pessoas que testaram positivo à covid-19.

Que o assumam “até aos confins da terra”, pois os resultados subjacentes ao comportamento manifestado ajudarão e em grande medida!

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