Ligar-se a nós

Opinião

A burocracia não deve negar a humanidade

Publicado

em

Há mortos que não descansam, não por falta de fé, mas por falta de papel. O Ministério da Justiça anunciou que quem não tiver bilhete de identidade não pode ser enterrado. A frase soa como sentença, não apenas administrativa, mas existencial. Como se a dignidade humana pudesse ser reduzida a um número impresso num cartão.

Mas milhares de angolanos nunca tiveram acesso ao registo civil. São gerações invisíveis, nascidas e crescidas fora da memória oficial do Estado. Não por escolha, mas por falha institucional. O que significa, então, exigir documentos que nunca foram garantidos? É punir os vulneráveis, negar-lhes até o direito ao descanso final.

O registo civil é mais do que burocracia: é reconhecimento. É dizer a cada cidadão que a sua vida conta, que a sua memória pertence à comunidade nacional. Quando o Estado falha em reconhecer a vida, não pode agora negar a morte. Enterrar os nossos mortos é também plantar raízes de identidade. Negar-lhes o chão é negar-nos o futuro.

Este episódio deve ser visto como símbolo da urgência de reforma. Precisamos de um sistema inclusivo, capaz de reparar a invisibilidade histórica e garantir que ninguém seja esquecido. O sepultamento digno não é uma concessão burocrática, é um direito humano. É o mínimo que uma nação deve assegurar aos seus filhos.

A morte não espera por carimbos. A memória não se mede em bilhetes de identidade. A dignidade não pode ser condicionada por falhas administrativas. Se queremos construir um país de renovação e justiça, precisamos começar por reconhecer que até os invisíveis têm direito ao descanso. Porque negar-lhes o chão é negar-nos a humanidade.

Continuar a ler
Clique para comentar

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Publicidade

Radio Correio Kianda

Publicidade




© 2017 - 2022 Todos os direitos reservados a Correio Kianda. | Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização.
Ficha Técnica - Estatuto Editorial RGPD