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Órfã do 27 de maio que interrompeu conferência de imprensa de JLO conta como teve acesso a sala

Redação

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Foi num centro comercial da Baixa de Lisboa, que Ulika da Paixão Franco aceitou falar para o Jornal de Angola. A senhora que ganhou as manchetes por interromper uma conferência de imprensa do Presidente João Lourenço a jornalistas portugueses, para falar do pai, que diz ter sido assassinado durante o “27 de Maio” de 1977.

Ainda trajada de preto, como na véspera, quando interrompeu a conferência de imprensa, Ulika Gisela da Paixão Franco dos Santos conta como chegou à sala, mesmo não sendo jornalista e, por isso, não estar autorizada a participar do evento, muito menos intervir.

A jovem, magra e com aspecto frágil, fruto talvez da anemia falciforme (doença que lhe foi diagnosticada aos 14 meses), chegou perto das 9h00 ao hotel, onde estava hospedado o Presidente da República, João Lourenço, e a Primeira-Dama, Ana Dias Lourenço. Tomou o pequeno almoço e aguardou pelo melhor momento para abordar o Presidente.

Conta que, ao tomar conhecimento que o Chefe de Estado estaria em Lisboa, escreveu para a Presidência da República Portuguesa, para os ministros da Justiça de Angola e Portugal, Assembleia da República, Gabinete do Primeiro-Ministro e para os ministros dos Negócios Estrangeiros e das Relações Exteriores.

Na carta, enviada uma semana antes da chegada do Presidente angolano a Lisboa, Ulika pedia a todos ajuda para intervirem junto do Chefe de Estado para a receber. Apenas do Gabinete do Primeiro- Ministro português recebeu resposta, mas sem garantias de satisfazer a solicitação.

Ulika estava avisada da conferência de imprensa desde a véspera, aproveitando-se dos contactos que mantém com a imprensa, fruto do seu trabalho de assistente de comunicação.

“Mandei mensagens a alguns editores e directores dos órgãos, que estariam na conferência de imprensa, a perguntar-lhes se alguém faria a pergunta sobre o 27 de Maio”, conta, para depois explicar que não teve resposta na altura. Só no dia seguinte viria a saber que ou a Lusa ou a TSF colocaria a questão ao Presidente. “Só foi esperar”, acrescenta, sublinhando que não foi difícil entrar na sala, já que os jornalistas não foram identificados e, também, alguns estavam mesmo à procura do local exacto. “Entrei e sentei-me na segunda fila”, afirma.

Entretanto, a oportunidade chegou quando a jornalista da TSF colocou a questão sobre o 27 de Maio. “Não queria ser mal educada e peço desculpas ao senhor Comandante”, afirma, com certa emoção na fala, sublinhando que tem consciência dos embaraços causados ao Presidente da República e demais autoridades.

“Apenas queria aproveitar a oportunidade para perguntar ao nosso Presidente, se seria capaz de pedir desculpas aos familiares do 27 de Maio e, também, para lhe pedir que, em vez de desenterrar as ossadas, identificá-las por DNA, como muitos defendem, que seria muito caro e Angola tem outras necessidades, que se construísse um memorial, um jardim com os nomes dos mortos nas árvores, para que as crianças conhecessem a história”, afirma.

Ao contrário do que disse no momento da conferência de imprensa, Ulika afirma que vai constantemente a Luanda e que vê com muita esperança a mudança operada. “Por isso é que tive a coragem de falar com o Comandante”, afirma e explica o porquê é que prefere chamar Comandante ao Chefe de Estado: “Ele é mais do que um Presidente, é um homem corajoso, que fez a sua travessia no deserto e se manteve firme. É de facto um Comandante, um militar capaz de operar mudanças em Angola”.

Ulika, que esteve em Luanda em Setembro último, afirma que nunca antes tentou abordar as autoridades, porque não se sentia confortável. “O nosso antigo Presidente era alguém que falava pouco e, pelo que sei, pessoas assim também ouvem pouco e que, certa- mente, nunca me ouviria nem chegaria até ele”, afirma, ao mesmo tempo que resume o perfil de João Lourenço: “não é um peão”.
Mestre em Comunicação e Cultura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Filosofia pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, Ulika é neta de Gentil Viana, que diz ter pago as propinas e ajudado durante a sua estadia em Portugal.

Ulika liderou projectos de consultoria em comunicação e relações públicas para organismos como o Ministério da Cultura de Angola, entre 2013 e 2014 (um dos quais durante o Fenacult, no mandato da ministra Rosa Cruz e Silva), Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA) e a União dos Escritores Angolanos (UEA), além de vários projectos em Portugal.

Consultora de Comunicação e Relações Públicas, é sócia gerente da Agência Unipessoal por si fundada em Junho de 2013, a UPF – Comunicação e Relações Lda.

Aos 42 anos, a mulher, que é familiar directa de Paixão Franco, antigo PCA do Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), de quem diz ter um amor incondicional, mostra o multicaixa de um dos bancos angolanos e afirma que guarda sempre as suas poupanças para passar o resto dos seus dias em Angola. “A minha mãe já está cansada, penso que já não sai daqui. Mas eu vou à minha terra”, afirma, esperançada na mudança.

C/ JA

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