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Um ano no Palácio Presidencial. Um livro em contra-mão – Jaime Azulay

Redação

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O que, ingenuamente, passaria como um contributo para a desconstrução da figura messiânica do anterior Presidente da Republica e a humanização do consulado do actual mandatário, tornou-se, como escreveu, a propósito, um internauta, “num destes pequenos gestos que envolveram José Eduardo dos Santos numa das maiores orgias bajulatórias, até perder quase totalmente o controlo do país”.

Por outras palavras: o autor de “Noticias do Palácio- O Primeiro Ano de Mandato do Presidente João Lourenço” vem, despido de qualquer senso critico e atitude reflexiva, fazer a mesmíssima coisa que se criticou e se prometeu mudar no pais.

Ao arrepio do que aconselha a mais elementar prudência, deparamo-nos com o desabrochar de um impaciente oportunismo pessoal, que vem embaraçar gratuitamente o comando que o presidente João Lourenço elegeu como um dos porta-estandartes do seu mandato: um combate cerrado a bajulação. Foi uma proclamação, cuja solenidade e seriedade despertou uma comunhão de sentimentos e legitimas expectativas na maioria dos angolanos.

As 473 paginas da obra literária do secretario do Presidente João Lourenço, valendo apenas pela temeraria ousadia do autor, vem engrossar o volumoso acervo das escandalosas manifestações de propaganda, idolatria e bajulação, prática nascida no Futungo de Belas nos anos noventa e que se transferiu depois, com armas e bagagens para o palácio da cidade alta e ali montou arraiais e, pelos vistos, quer ficar.

O livro não consegue fugir disso, porque ele é isso, simplesmente. Há uma narrativa biográfica, escorrida cronologicamente no percurso de um ano (o primeiro dos cinco anos do mandato presidencial), em torno do qual desfilam as insuperáveis virtudes do líder visionário, do incomparável estratega, imaculado como Messias, sem o qual a nação, frágil e desamparada, inevitavelmente sucumbirá.

E depois, como a apetecida cereja cravada em cima do cremoso bolo, vem o episódio ocorrido em Cabinda, durante o qual uma viatura da caravana presidencial atropela acidentalmente uma criança que atravessava a rua. Ali surge a oportunidade para o autor destilar até a exaustão, em linhas salpicadas de incontidas lágrimas de crocodilo e ridícula comoção, a infinita compaixão do líder, pessoa com coração-de-oiro, que sofre no espirito os sofrimentos alheios e não olha a meios, quaisquer que sejam, para minora-los na hora!

Intencionalmente escamoteada das luzes da ribalta, fica a dura realidade do dia-a-dia da grande maioria dos angolanos: a diminuição do poder de compra dos salários, o agravamento do nível de vida das pessoas, a cifra de mendigos e crianças de rua que aumentou nas cidades durante o último ano, as estradas que continuam intransitáveis, os crónicos problemas dos lares sem água nem luz, os hospitais sem medicamentos e, por fim, a inquietação geral sobre a possível aplicação de uma politica de justiça selectiva, virada essencialmente para atingir nas suas malhas a família do antigo presidente.

É isso! O livro tem sim um contra-ponto, para o qual o autor aponta subtilmente, mas sem contemplações, o seu tubo de descarga. Alias, o livro é mesmo um contra-ponto! A culpa de todos os nossos males, colectivos e individuais pertence ao outro, o arquitecto, em cujo consulado, pasme-se ou não, o autor serviu fielmente durante doze anos como director do Jornal de Angola, o então único diário nacional e tido como um dos baluartes do antigo regime. Oh, paradoxo dos pecados!

Não se questiona aqui, nem em lado algum, a legitima liberdade de criação do autor e de ele publicar o que escreve. Não existe norma capaz de suprimir o direito de expressão e de criação de obras literárias. Mas, uma coisa é a liberdade de manifestação da veia literária e outra coisa, bem diferente, é o que o senso comum simplesmente desaconselha e até reprova, enquanto nos capacita com ferramentas adequadas para a compreensão de que, neste mundo, somos seres falíveis. Inovar nas altas esferas do poder implica responsabilidade acrescida e devida ponderação: quero fazer! posso fazer! Mas, devo fazer?

O senso comum é o tipo de saber que fornece conhecimento ao homem para que ele não repita os erros do passado. Infelizmente, não foi isso o que se passou com o autor. Ao aperceber-se da repulsa quase geral ao modelo que engendrou para bajular o novo presidente, veio a terreiro através das redes sociais, com uma arrogância de bradar aos céus, chamar os críticos do livro de “insectos” desejosos de atacarem a sua “lâmpada” fluorescente no firmamento dos eleitos, esquecendo-se que advertir e criticar as instituições pelas suas más praticas constitui um salutar exercício de cidadania.

Geralmente, este tipo de livro é publicado no final dos mandatos presidenciais, ou quando os porta-vozes ou outros colaboradores próximos de um presidente são afastados e, em retaliação, decidem revelar os segredos e meandros do líder que serviram. É comum nos Estados Unidos da América.

Nos EUA, o porta-voz da Casa Branca (White House Press Secretary) é o porta-voz do presidente. Ele faz parte do Gabinete Executivo e é também chamado de secretario de imprensa e tem como atribuições a colecta de informações sobre os actos e eventos da administração presidencial e fazer o contacto com a imprensa, geralmente num encontro diário com a imprensa acreditada na Casa Branca. Nas conferencias de imprensa ele responde as questões levantadas pelos jornalistas. O Cargo existe em Washington desde os anos vinte e tem sido ocupado por jornalistas experientes O nosso modelo é confuso e ninguém sabe se o secretário do Presidente para a Comunicação Institucional e Imprensa, que pertence aos órgãos de apoio, é ele, de facto, o porta-voz do PR. O que temos visto, são situações que originam equívocos e uma informal sobreposição e usurpação de competências na tutela dos órgãos de comunicação social públicos, bem como interferências que ferem a sua independência editorial. Apesar da prerrogativa legal do chefe do Executivo nomear os Conselhos de administração das empresas públicas do sector, quanto mais influência da instituição PR nas decisões editoriais, menos liberdade de informar e menos democracia haverá. Mas isso são contas para outros rosários.

Em definitivo, João Lourenço não necessitava nem necessita desse livro!

Os angolanos abraçaram o projecto reformista do novo presidente de desenvolver um Estado institucionalmente forte nas suas três esferas de poder e não mais o poder do príncipe!

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