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Opinião

24h após as eleições em Angola é hora de olhar para a economia

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Por: Rosália Amorim*

Hoje os angolanos acordaram com a sensação de missão cumprida. As eleições decorreram com serenidade e quase todos os eleitores colocaram o voto na urna, à exceção de e 1300 eleitores de três províncias onde os boletins de voto tiveram dificuldades em chegar por causa do mau tempo do cacimbo, ou seja, a estação que mais se aproxima do inverno, ainda que com temperaturas moderadas.

O dever de cidadania foi cumprido. Politicamente estas eleições são um marco na história angolana, já que representam o fim de uma era de poder com 38 anos, protagonizada pelo presidente José Eduardo dos Santos. As sondagens apontam para a abstenção mais elevada de sempre e apontam também que o MPLA pode, desta vez, não ter a maioria dos votos e daí já se traçarem cenários sobre uma eventual ‘geringonça angolana’ ou seja, uma possível aliança entre o MPLA e a coligação da oposição CASA-CE. Uma ambição de muitos, mas encarada como pouco provável por grande parte dos analistas políticos.

Do lado económico, as eleições representam a esperança numa nova era, sobretudo no que toca às relações Portugal-Angola. Julgo que o primeiro desafio de João Lourenço, que ao que tudo indica deverá ser o próximo presidente de Angola, será restabelecer a relação de confiança com Portugal. Nenhum dos dois países ganha se viver de costas voltadas ou com desconfiança, seja por causa dos casos que estão nas mãos da justiça e que envolvem personalidades angolanas, seja por causa dos pagamentos em atraso às empresas portuguesas e que se agravaram devido à falta de divisas, consequência da crise e da baixa de preço do barril de petróleo.

Com estes temas resolvidos ou, pelo menos, minorados, o futuro presidente terá condições para apostar não tão desejada diversificação da economia e na atração de investimento direto estrangeiro (IDE). Do lado português, o IDE caiu 5,4% no primeiro trimestre deste ano face ao mesmo período de 2016. Com confiança e pagamentos em dia, não será difícil retomar as relações de outros tempos. É preciso também, do lado português, fazer uma aposta séria na diplomacia económica, assente em realpolitik.

Do lado das exportações registou-se um grande o trambolhão das vendas portuguesas para Angola durante 2016 mas este indicador já está a recuperar este ano. No primeiro semestre de 2017 já exportámos mais 47% do que no primeiro semestre do ano passado. Um dos maiores crescimentos foi na categoria de produtos agrícolas, depois de produtos químicos e de calçado. Com a aposta na diversificação da economia, Angola quererá encolher as importações e aumentar a produção industrial.

No futuro, não será mais fácil vender produtos daqui para a Angola e nem sei se algum dia voltaremos a ter na lista as 3883 empresas lusas que deixaram de vender produtos para aquele país entre 2013 e 2016. Insistir na antiga ‘política de contentor’ não dará frutos, mas se estrategicamente os dois países se entenderem poderemos reatar relações de bons parceiros ao nível do IDE e voltar a ver na Filda – Feira Internacional de Luanda (o mais importante certame económico anual naquele país) uma centena de empresas portuguesas em vez de apenas 17, como aconteceu em julho último.

Acredito que Angola vai continuar a crescer com o apoio das empresas portuguesas. Se queremos manter a aliança não podemos ser naifs. Angola é uma ‘noiva’ muito cobiçada. Espanhóis, alemães, italianos estão cada vez mais presentes naquela economia e querem a sua fatia de leão e vão disputa-la com os portugueses, já sem falar na forte concorrência chinesa e brasileira. As outras nações também sabem que Angola é uma potência regional, fundamental para os equilíbrios políticos e para a segurança militar na África subsaariana, e que, depois de alcançada a paz e a reconciliação nacional, tem ainda muito para crescer.

* Dinheiro Vivo

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