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Sociedade

Escolas de Luanda em risco de desabamento aos olhos de quem Governa

Paredes rachadas, vidros quebrados e portas arrombadas. Já leva quase uma década que os sinais de desgaste e destruição se espalham por várias escolas públicas de Luanda, deixando milhares de alunos com o sonho da formação em risco iminente.

Redação

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Apesar de tímidos sinais para a recuperação, algumas continuam sem estruturas para voltar às aulas a curto prazo. A má condição técnica preocupa as comunidades locais.

São dezenas de escolas com problemas estruturais de fundo, em Luanda. A realidade delas é díspar, mas todas apresentam um dado em comum: carecem de restauração.

Em algumas instituições de ensino, a realidade é tão desoladora que as batas brancas já deram lugar a centenas de ratos, vermes e insectos. A falta de manutenção permanente tornou-as pontos de consumo de drogas e outras práticas delituosas.

Essa realidade é um facto na Angola e Cuba, Ngola Mbandi, Pica-pau e na Escola 16, localizadas nos municípios do Cazenga e nos distritos urbanos do Rangel e da Maianga.

Dessas quatro escolas, duas já estão encerradas (Angola e Cuba e Pica-Pau). As outras funcionam com estruturas degradadas e sem as mínimas condições de higiene.

Juntas, as quatro podem albergar mais de 30 mil alunos, do ensino primário e do I ciclo do ensino secundário e ajudar a reduzir o índice de crianças fora do sistema escolar.

Dados oficiais apontam para a existência, em Luanda, de pelo 769 escolas públicas, contra mil e 171 colégios privados e mil 497 comparticipadas.

São, ao todo, oito mil e 841 salas de aulas, que albergam aproximadamente dois milhões, 240 mil e 177 alunos, nos vários níveis de ensino.

Deste número, um milhão 107 mil e 308 são alunos do ensino primário, 829 mil e 665 do I Ciclo (da 7ª à 9ª classe) e 303 mil e 204 do II Ciclo do médio.

Do leque de 769 escolas públicas de Luanda, mais de duas centenas carecem de serviços básicos. Os dados oficiais a que a Angop teve acesso apontam para a existência de 224 escolas sem energia eléctrica da rede e 374 sem água potável, na capital do país.

Em muitas delas há falta de quase tudo: lâmpadas, carteiras e mais dinheiro para recuperar as estruturas degradadas, como muros, tectos, portas e janelas. 

Drama na Angola e Cuba

Este cenário é bem mais acentuado nas escolas Angola e Cuba e Pica-Pau, encerradas há mais de oito anos e há dois anos, respectivamente. O estado de degradação levou as autoridades locais a transferir os alunos para outras vizinhas.

A situação da Angola e Cuba já se pode considerar dramática. Sem portas, com janelas partidas, paredes manchadas e grande volume de lixo no interior e exterior, a instituição construída em 1988 está longe da imagem apresentada até ao começo do milénio (2000).

A escola do I ciclo do ensino secundário, com 25 salas de aulas, é uma das mais antigas do município do Cazenga. Foi erguida por técnicos cubanos, no quadro da cooperação entre Angola e Cuba, dois parceiros estratégicos, desde a década de 1970.

Depois de várias décadas a leccionar, a escola é hoje um “fardo” para as autoridades do Cazenga. Tomada por fissuras e fendas nas paredes, tornou-se um depósito de lixo. Em tempo de chuva, inunda e acumula matéria orgânica que pode causar doenças.

As paredes foram manchadas com centenas de expressões ofensivas.

Segundo relatos de moradores da zona, a estrutura de betão está cansada, o que faz “abanar” o edifício e põe em risco quem por ali circunda ou queira estudar.

Para ter acesso ao interior é necessária agilidade e boa condição de saúde, tendo em conta o desmoronamento das escadas e o mau cheiro causado por fezes e urina.

A escola saiu de “cena” de forma paulatina. Só depois dos tremores nas paredes, soou o sinal de alerta e foi considerada “inapta”, interrompendo uma história de largos anos.

A paralisação deveu-se à necessidade de obras de restauro, o que levou à transferência de centenas de estudantes para outras escolas, como a 3039 e da FESA.

Apesar das movimentações das autoridades municipais, o cenário continua igual. A primeira tentativa de intervenção foi em 2017 e resumiu-se a um levantamento do orçamento para recuperar a estrutura, que ficou à volta de 37 milhões de kwanzas.

Moradores lamentam

De lá para cá, nada andou. O cenário da escola leva ao desespero dos munícipes, que lançam um grito de socorro às autoridades, para a recuperação da mesma.

Os moradores apontam o bom exemplo seguido com o Mutu-ya Kevela que, depois de longos anos fechada, ganhou nova vida. Recuperada e ampliada, a instituição abre neste ano lectivo como Escola de Formação de Professores (Magistério Primário).

Habituados a ver os filhos a estudar próximo de casa, pais e encarregados de educação lamentam a situação em que se encontra a escola Angola e Cuba.

Segundo Joaquim Pinheiro, que mora a escassos metros da escola, a paralisação obriga-o a matricular os filhos em instituições distantes e gastar muito com transporte.

“O encerramento é mau para o município, porque contribui para o aumento do número de crianças fora do sistema de ensino”, lamenta.

Já o actual director da escola 3042 e antigo subdirector da Angola e Cuba, Pedro Makanga, avança que a reabertura seria uma mais-valia para o Município do Cazenga, tendo em conta o número reduzido de escolas do I Ciclo.

Reabilitação na forja

O problema da escola Angola e Cuba é do conhecimento das autoridades locais.

Segundo Victor Nataniel Narciso, administrador do Cazenga, a situação da mesma é lastimável, mas já está em curso um programa para a recuperação. O projecto de reestruturação prevê o acréscimo de salas, passando de 25 para 32 salas de aulas.

Para o efeito, foi já contratada uma empreiteira que reavaliou o orçamento e fixou em 140 milhões de kwanzas. A administração, de acordo com Nataniel Narciso, havia calculado e sugerido uma verba próxima dos 340 milhões, rejeitada pelo Executivo.

Ainda assim, o administrador diz-se optimista com a recuperação da escola e sublinha que já foram disponibilizados, no começo do ano, 44 milhões de kwanzas, para a fiscalização e pagamento da primeira prestação ao empreiteiro, para o início da obra.

Ngola Mbandi: Um atentado à saúde

Tal como acontece na Angola e Cuba, a Escola Ngola Mbandi também vive uma realidade triste. Das 31 salas de aulas, apenas 18 estão em funcionamento.

Situada no distrito urbano do Rangel, funciona em condições higiénicas deploráveis. De um lugar de saber, transformou-se em espaço de atentado à saúde pública, onde falta quase tudo, desde o interior até ao exterior da estrutura.

As paredes estão “cravadas” com palavras ofensivas. As casas de banho estão sem condições mínimas de utilização, com sanitas entupidas e entregues a sua sorte. Porém, é nessas condições que os estudantes fazem as necessidades fisiológicas básicas.

A estrutura das 31 salas de aulas apresenta-se em péssimo estado técnico, com mosaicos quebrados, desarrumados e soltos pelo chão.

Mesmo convivendo com o mau cheiro, pó, baratas, moscas, teias de aranhas e ratos, a comunidade estudantil esforça-se para transmitir e aprender conhecimentos.

Todavia, os habitantes e transeuntes questionam-se se de lá sairão quadros bem formados, tendo em conta as péssimas condições de trabalho e os riscos de saúde pública.

Alfredo Francisco, director da instituição, lamenta as más condições e apela às entidades de direito no sentido de recuperarem a infra-estrutura.

De acordo com Clélio Solege, professor da escola há 11 anos, as condições de trabalho não são dignas, dado o acelerado estado de degradação.

Já Francisco Pedro (lecciona desde 1991 no Ngola Mbandi) sublinha que, nas actuais circunstâncias, nem dá para trabalhar e pensar em sucesso na formação.

Silêncio no Pica-Pau

Cenário idêntico vive-se na Escola Pica-Pau. Localizada nas redondezas da Avenida Brasil, distrito Urbano do Rangel, a escola de 16 salas de aulas encerrou as portas há dois anos, por falta de condições técnicas.

Está tomada por um acentuado grau de degradação. Em tempo de chuva, é praticamente impossível aceder ao interior das salas.

Com o fecho da escola, dezenas de alunos foram transferidos para instituições vizinhas. Além da falta de condições e da necessidade premente de recuperação, um outro problema agudiza a situação no Pica-Pau: disputa da titularidade do espaço.

O diferendo entre os supostos titulares do espaço onde foi erguida condiciona a materialização do projecto de reestruturação e acende a ira dos munícipes.

“Estamos muito tristes com isso. A proximidade da escola ajudava e impedia que as crianças atravessassem a estrada”, desabafa Iracema Barros, enquanto Ana Cardoso, também moradora da circunscrição, apela à intervenção das autoridades.

Segundo as encarregadas de educação, o encerramento da escola constitui um motivo para o aumento de delitos, pelo que deve ser revisto.

“Nós precisamos que a escola esteja reabilitada, para manter os nossos filhos mais próximos de casa. Apelamos que se resolva esse diferendo”, acrescenta Ana Cardoso.

O problema da degradação das escolas é um mal que afecta pais e filhos, deixando ao Estado a missão de reacender a esperança e mudar o destino delas.

Com esse cenário, Angola e Cuba, Ngola Mbandi, Pica-Pau e a Escola 16 estão em risco de desabamento. Se nada for feito, ficarão perpetuadas na história, pelo nome e simbolismo que carregam, mas, também, pela má condição que ofereceram aos alunos.  

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